A Porta Que Não Fechava
Eu nunca gostei da porta do quarto da minha avó.
Nem quando era criança.
Ela ficava no meio do corredor, antes do banheiro, e nunca fechava direito. Sempre havia uma fresta estreita entre a madeira e o batente. Pequena, mas sempre ali. Eu cresci vendo ela daquele jeito.
Desde pequena achei que a porta estava estragada. A casa era antiga, então fazia sentido. Mas, conforme fui crescendo, comecei a me sentir incomodada por aquilo. Sempre me dava arrepio ver aquela porta entreaberta.
Lembro de perguntar uma vez para a minha avó, "por que ela não fecha essa porta direito?"
Ela estava sentada na cama dobrando roupa naquele dia. Sorriu sem nem olhar para mim. "Não se preocupa com a porta, deixa ela assim."
Não pensei muito na resposta, apenas aceitei e fui embora.
Mesmo assim, eu evitava olhar para aquela fresta quando passava pelo corredor à noite.
O problema é que era impossível não olhar.
A sensação era estranha. Não era exatamente medo. Mas me incomodava muito, parecia que tinha alguma coisa do outro lado observando o movimento da casa.
Eu nunca via nada, olho, rosto, sombra passando.
Só a sensação, e sempre achei que era mais uma coisa minha.
Mas às vezes ela parecia se mover um pouco. Coisa mínima. Um balanço tão leve que eu sempre acabava pensando que talvez fosse vento. Mas não havia janela no corredor. E o movimento não parecia natural. Era lento demais.
Uma vez parei para observar.
A porta estava estática.
Depois deu uma mexida quase imperceptível para dentro.
E voltou.
Como se ela estivesse respirando devagar.
Eu corri para o meu quarto assustada. Naquela noite eu dormi com a televisão ligada.
Depois disso comecei a passar mais rápido pelo corredor.
Com o tempo comecei a reparar em outras coisas. De vez em quando, o quarto da minha avó tinha um cheiro diferente do resto da casa. Não era cheiro ruim. Era cheiro de terra molhada. Como quintal depois de chuva.
Às vezes o cheiro aparecia no corredor também.
Principalmente de madrugada.
Parecia idiota até para mim mesma, mas eu odiava passar perto daquela fresta. Sempre tinha a impressão de que, se eu demorasse demais, alguma coisa ia pular do outro lado.
Nunca contei isso para ninguém porque sempre imaginei ser coisa de criança mesmo.
Um domingo minha mãe saiu com meus irmãos e minha avó estava dormindo no sofá da sala. A casa estava silenciosa daquele jeito de tarde quente.
Eu passei pelo corredor e parei na frente da porta.
A fresta estava lá.
Na mesma posição de sempre.
Eu não sei explicar o que me deu naquele dia. Acho que fiquei irritada. Irritada por ter medo de uma coisa tão idiota desde criança.
Pensei: “é só uma porta.”
Segurei a maçaneta e puxei.
Ela andou um pouco. Mas não fechou.
Puxei mais um pouco.
A fresta diminuiu, mas a porta não parecia fechar. Não parecia estar pegando em lugar nenhum, só parecia não querer fechar.
Senti imediatamente o cheiro de terra molhada ficando mais forte.
Algum medo tomou conta de mim e numa urgência comecei a puxar mais forte.
A porta pareceu ficar pesada demais. Meus braços começaram a tremer fazendo força. A poucos centímetros de encaixar no batente, ela travou.
Ela não chegou a fechar, apenas travou.
Então ouvi um estalo seco atrás dela. Não parecia madeira estalando, parecia mais quando estalamos os dedos.
Imediatamente parei de puxar a porta, sentindo um gelo no peito.
Então uma voz falou do outro lado, bem clara e nítida.
— Você não devia mexer nisso.
Eu larguei a maçaneta na hora.
A porta abriu sozinha alguns centímetros, voltando para a posição de sempre.
Eu saí correndo do corredor e quase derrubei uma cadeira da cozinha.
Minha avó apareceu na porta da sala assustada com o barulho.
Comecei a falar tudo ao mesmo tempo. A voz, o cheiro, a porta.
Ela ficou me olhando em silêncio.
Sem expressão nenhuma.
Quando terminei, ela perguntou:
— Você tentou fechar?
Até hoje acho que essa foi a pior parte.
Porque ela não perguntou “que voz?”.
Não perguntou se eu estava bem.
Não perguntou do que eu estava falando.
Só perguntou aquilo.
Eu comecei a chorar na hora.
Ela suspirou bem fundo, passou a mão no meu braço e disse "calma, está tudo bem, não tem nada para se preocupar."
Depois voltou para a sala como se nada tivesse acontecido.
Quando meus pais chegaram, falei o que tinha acontecido, mas falaram que era só uma porta emperrada, para eu parar de ter medo besta.
Nunca mais toquei naquela porta, e sempre que eu passava na frente dela, era com pressa.
Os anos passaram. Minha avó morreu quando eu tinha vinte e três anos. A casa foi vendida pouco tempo depois.
Achei que ia esquecer aquilo quando saísse de lá, mas nunca esqueci.
Hoje moro sozinha, e isso é uma coisa que nunca contei para ninguém porque parece ridículo quando falo em voz alta, mas eu não consigo dormir enquanto não tiver certeza de que todas as portas estão completamente fechadas.
Mas sempre acordo no meio da madrugada com a sensação horrível, olhando para o armário, com a impressão de que algo está do outro lado esperando eu abrir uma fresta.