Bela
A minha melhor amiga, a Bela (de Isabela), é praticamente minha prima mais do que amiga. A mãe dela morreu de overdose e nunca contou para ninguém quem era o pai dela, então a minha tia criou ela como filha desde pequena. Isso sempre foi muito triste, principalmente porque a Bela é uma garota muito boa. Sério, uma das pessoas mais doces que eu já conheci.
As histórias que vou contar aconteceram com ela.
A Voz
Isso aconteceu do nada. Não foi algo gradual, que foi piorando aos poucos. Foi simplesmente BAM! Bem no meio da cara.
Nós duas estávamos deitadas na cama dela — que era uma cama de casal enorme — assistindo um filme qualquer depois da escola. A gente sempre foi muito próxima, então geralmente nem conversávamos muito. Só ficávamos ali, cada uma no seu canto, entendendo a outra sem precisar falar nada.
Então a TV desligou.
Junto disso veio um som de alguma coisa rachando.
Eu levei um susto e sentei na cama achando que a televisão tinha queimado ou coisa parecida, mas a Bela levantou num pulo e começou a olhar em volta do quarto com uma cara completamente aterrorizada.
“Bela? O que foi?”
“Ai meu Deus… NÃO!”
Ela parecia assustada de verdade. Não parecia brincadeira.
Então ela gritou:
“CORRE!”
Ela saiu correndo na direção da porta e eu fui atrás. Só que quando tentamos abrir, a porta simplesmente não mexia. Parecia emperrada. Nós puxamos, empurramos, tentamos de tudo, mas ela não abria de jeito nenhum.
Não tinha mais ninguém em casa além da gente.
Então as luzes apagaram.
Cara…
Eu não consigo explicar aquela escuridão.
Ainda era de tarde. O quarto tinha DUAS JANELAS. Era para ter luz entrando. Mas ficou tudo preto. PRETO MESMO. Eu não conseguia ver nem minha mão na frente do rosto.
Nós duas ficamos com as costas grudadas na porta.
Eu agarrei o braço da Bela e comecei a tremer.
“O que está acontecendo?” eu sussurrei, tão baixo que acho que ela nem ouviu.
“Ele está aqui.”
Uma voz respondeu.
Mas não era a voz da Bela.
Veio do meio do quarto.
Até hoje eu não consigo explicar aquela voz direito. Era horrível. Completamente desafinada. Parecia alguém tentando imitar uma voz humana sem realmente saber como ela funciona.
Então ouvimos um barulho no chão perto da cama, como se alguém tivesse pisado com todo o peso do corpo ali.
Eu comecei a chorar na mesma hora, sem nem perceber. Lágrima descendo igual torneira.
Então a voz falou de novo. Dessa vez parecia feminina. Suave. Quase maternal.
Mas completamente MALIGNA.
“Não chorem, garotas… Vai doer menos se vocês não gritarem.”
Na mesma hora senti mãos pequenas arranhando minha perna. Várias delas. Como mãos de criança.
Eu estava usando jeans do uniforme, então não machucou muito, mas a Bela estava de shorts.
Ela começou a gritar.
Eu simplesmente fechei os olhos e abracei ela o mais forte que consegui. Então alguma coisa jogou nós duas no chão.
E tudo acabou.
A luz voltou, a TV ligou sozinha passando uma novela qualquer, e nós duas estávamos no chão agarradas uma na outra, com o cabelo bagunçado e o rosto cheio de lágrimas.
Então a porta abriu.
Nós gritamos.
“Calma! Sem gritaria!”
Era a minha tia, dizendo que o jantar estava pronto.
Ela olhou para nós duas e perguntou se tinha acontecido alguma coisa, porque parecíamos que tínhamos brigado. Nós falamos que estava tudo bem e que já íamos descer.
Assim que ela saiu do quarto, nós começamos a olhar os braços e as pernas uma da outra.
As nossas pernas estavam cheias de arranhões pequenos. Meu braço estava roxo, como se alguém tivesse apertado com muita força, e a Bela tinha um galo enorme na cabeça.
“Mas que porra acabou de acontecer?” eu perguntei.
“Eu não sei direito…” ela respondeu.
Então olhamos para o relógio.
Já eram quase 20:30.
A Garota
Nem preciso dizer que nós tentamos esquecer aquilo. Fingir que tinha sido um incidente isolado.
Mas não deu.
Um mês depois aconteceu de novo.
Era o dia seguinte ao aniversário de 12 anos da Bela. Estava MUITO quente, quase 30 graus, e nós tínhamos acabado de sair da piscininha de criança que ela tinha no quintal. Sim, era ridículo, mas estava calor demais para se importar com isso.
Nós duas estávamos sentadas no quintal, eu tomando sorvete e a Bela com um pirulito.
Então senti um frio, completamente fora do normal.
Foi instantâneo. Como entrar num freezer.
Não fazia sentido. O sol estava forte, mas eu estava congelando.
Olhei confusa para a Bela e ela estava encarando alguma coisa atrás de mim, completamente paralisada, com os olhos arregalados de medo e o pirulito ainda na boca.
Quando virei, vi uma garotinha parada ali. Aquilo não parecia uma criança normal.
Ela estava sorrindo.
Mas era um sorriso horrível. Malicioso. O tipo de sorriso de alguém que está prestes a fazer alguma coisa cruel e sabe disso.
Os olhos dela tinham um reflexo estranho, quase avermelhado, que fazia meu sangue gelar só de olhar. Ela usava uma blusa estampada de ursinhos, calça azul, e a pele era pálida demais.
Na mão esquerda ela segurava um pedaço pontudo de ferro.
A menina respirava pesado pelo nariz, igual um animal bravo, enquanto encarava nós duas.
Eu senti meu estômago despencar.
Nós gritamos na mesma hora e minha tia saiu correndo pela porta da cozinha.
Quando olhamos para ela, o frio desapareceu imediatamente.
A garota também.
Simplesmente sumiu.
Minha tia começou a brigar com a gente, perguntando qual era o nosso problema.
“Eu pensei que tinha um maníaco aqui fora! Nunca mais façam isso!”
Nós tentamos explicar o que tinha acontecido, mas ela obviamente não acreditou. Achou que estávamos fazendo brincadeira.
“Desculpa, tia. Não vai acontecer de novo.”
Ela entrou de volta para casa e nós duas ficamos em silêncio.
E graças a Deus, nunca mais vimos aquela garota de novo.
Mas não vou esquecer o jeito que aquela menina olhava a Bela.
Não era curiosidade, nem raiva normal. Parecia ódio.
A Mulher
Essa não aconteceu na casa da Bela.
Era um sábado à noite e eu estava sozinha na sala da minha casa lendo um livro. Minha mãe já estava dormindo e, pela primeira vez em muito tempo, a casa inteira estava silenciosa.
Então senti aquele medo de novo.
Do nada.
Não ouvi nenhum barulho. Não vi nada estranho. Mas, de repente, fiquei apavorada sem motivo nenhum. Fiquei parada no sofá, ouvindo o silêncio da casa.
Então o telefone tocou.
Eu quase morri do susto.
Atendi quase no primeiro toque.
“O que aconteceu?”
Até hoje acho estranho eu ter atendido já perguntando isso.
Era a Bela.
“Posso dormir aí hoje?”
“Pode. Sem problema.”
Algum tempo depois ela chegou na minha casa. Assim que entrou pela porta eu percebi que ela estava muito assustada.
Então ela me contou o que tinha acontecido.
Ela ia dormir na casa de uma amiga, junto com mais cinco garotas. Primeiro resolveram brincar do copo, mas a Bela não quis participar e ficou na sala assistindo TV.
Depois disso, as meninas decidiram tentar alguma coisa “mais assustadora” e foram para o banheiro brincar com espelho e espíritos usando velas.
A Bela continuou sozinha na sala.
Foi aí que aconteceu.
Segundo ela, a TV ficou escura de repente. Não desligou. Só ficou preta, como se estivesse fora do ar.
Então ela viu, refletida na janela atrás da televisão, uma mulher em pé atrás do sofá.
Parada.
Olhou o tempo inteiro para o reflexo porque estava com medo demais para virar.
E da TV ela ouviu uma voz masculina dizendo:
“Bela… minha criança… venha para mim. Eu não vou machucar você. Não como no seu quarto.”
Quando ela me contou isso, eu senti meu sangue gelar.
Então, segundo a Bela, a mulher abriu os braços.
Na mesma hora a porta da sala abriu e as outras garotas entraram correndo e gritando. A TV voltou ao normal e quando a Bela virou para trás não tinha mais ninguém ali.
Mas sabe o pior?
As meninas começaram a mandar a Bela ir embora da casa.
Elas disseram que, quando estavam olhando para o espelho no banheiro, viram a Bela aparecendo atrás delas no espelho.
Só que não parecia exatamente ela.
Segundo as garotas, a “Bela” do espelho estava olhando para elas de um jeito horrível e ameaçando todas.
Foi aí que ela me ligou pedindo para dormir na minha casa.
Eu fico muito triste pela Bela ter passado por coisas assim, porque ela realmente não merecia nada disso. Ela é uma das pessoas mais gentis que eu já conheci.
Até hoje eu não sei o que seguia a Bela.
Não sei se era um espírito, um demônio ou alguma coisa ligada ao nascimento dela.
Mas eu sei de uma coisa:
Aquelas coisas eram REAIS.
E muitas outras devem ter acontecido com ela. Mas é difícil fazer ela falar algo desses assuntos.