A Estrada Para o Terror

Eu nunca fui de acreditar muito nessas histórias de estrada assombrada.

Sabe aquelas histórias de interior? Mulher de branco, coisa no mato, luz no meio da estrada, essas coisas. Eu sempre achei divertido ouvir, mas nunca levei realmente a sério.

Até porque a nossa cidade era pequena e extremamente sem graça. Depois de um tempo você conhece tudo. Todo mundo conhece todo mundo. Não tem nada para fazer de noite além de rodar de carro, parar em posto, comer alguma coisa e reclamar da vida.

E foi exatamente isso que aconteceu naquela noite.

Estávamos em cinco dentro do meu carro velho: eu, minha namorada, o irmão mais novo dela, a prima deles e um amigo meu. Todo mundo espremido dentro do carro porque ninguém queria ficar em casa naquele calor infernal.

A cidade estava morta naquela noite. Não tinha praticamente ninguém na rua. Lua nenhuma no céu também. Só aquelas estrelas absurdamente fortes que aparecem em cidade pequena quando tudo fica escuro de verdade.

A gente rodou um pouco pela área central, passou na praça, no lago, foi até perto da rodoviária, aí começou aquele tédio de novo.

Então meu amigo falou:

— Bora pegar as estradas de terra.

E foi isso.

Parecia uma ideia ótima na hora.

A gente saiu da cidade sem rumo mesmo, entrando nas estradas ao redor. No começo ainda aparecia uma casa ou outra, algum sítio, umas luzes longe… mas depois ficou só escuridão.

E era uma escuridão pesada.

Não tinha poste. Não tinha placa. Não tinha nada.

Só o barulho do carro, poeira e mato dos dois lados.

Minha namorada comentou:

— Acho que eu nunca passei aqui.

E eu também não lembrava daquela estrada.

Mas isso deixou todo mundo animado. Parecia descoberta. Parecia aventura idiota de jovem entediado.

Então continuamos.

Depois de um tempão andando, chegamos numa bifurcação.

Uma das estradas parecia normal. A outra…

Cara.

Parecia abandonada fazia anos.

O mato já estava entrando nela de novo. Tinha galho espalhado, terra irregular, umas marcas estranhas no chão… parecia estrada que ninguém usava mais.

Meu amigo começou na hora:

— É ESSA.

A prima da minha namorada falou:

— Claro que é essa. Se a gente morrer hoje eu já sei de quem foi a ideia.

E todo mundo riu.

Hoje eu acho engraçado lembrar disso.

Porque ninguém fazia ideia.

Eu entrei com o carro naquela estrada.

E logo ficou claro que ela estava ruim MESMO.

O carro pulava sem parar. Tinha trecho que parecia que o mato fechava quase em cima do carro. Mais para frente a vegetação começou a ficar mais alta, mais fechada. Árvores grandes dos dois lados.

E uma coisa começou a me incomodar.

Tinha um silêncio muito estranho ali.

Tipo… silêncio demais.

Conforme a gente entrava mais naquela estrada, os sons foram sumindo.

Só dava para ouvir o motor, os pneus na terra e às vezes o mato raspando no carro.

Não tinha grilo, não tinha cachorro latindo longe, não tinha nem barulho de inseto.

Quanto mais a gente andava, mais aquele lugar parecia morto.

A gente até começou a falar mais baixo sem perceber.

Depois de um tempo vimos as árvores caídas atravessadas na estrada.

Não eram galhos, eram árvores mesmo.

Duas.

Caídas bem no meio do caminho.

Meu primeiro pensamento foi que alguém tinha colocado aquilo ali de propósito.

Porque não parecia acidente.

Parecia mais um bloqueio.

A gente ficou discutindo dentro do carro.

Volta ou continua?

Só que já estávamos curiosos demais.

E sinceramente… ninguém queria admitir que estava com medo.

Então eu e meu amigo descemos.

Foi um inferno tirar aquilo do caminho. Os troncos eram pesados pra caramba. A gente arrastou, chutou, puxou, ficou suando igual condenado naquele calor desgraçado.

Enquanto isso o resto ficou dentro do carro iluminando com o farol.

Quando finalmente abrimos passagem, voltamos para dentro do carro e seguimos.

Eu devia ter dado meia-volta ali.

Sem brincadeira.

Devia MESMO.

Porque pouco depois a estrada acabou.

Literalmente acabou.

Ela terminava numa casa.

Não.

Numa casa não.

Num casarão.

Enorme.

Escondido no meio do nada.

Até hoje eu não consigo explicar aquilo direito. Era grande demais para estar ali. Parecia uma construção antiga esquecida pelo mundo inteiro.

Tinha dois andares, um monte de janela na frente, escadaria de pedra na entrada… só que tudo estava apodrecendo. As janelas tortas. Madeira escura. Parte do telhado caída.

E o pior era o jeito que aquela casa aparecia.

Porque a estrada simplesmente levava até ela.

Como se fosse feita para aquilo.

Ninguém falou nada por alguns segundos.

Aí meu amigo soltou:

— Ah não… agora a gente TEM que entrar.

E pronto, já era.

Eu virei o carro apontando para a frente da casa e liguei o farol alto para iluminar.

Fomos todos até a porta da frente. Era enorme, pesada, e estava trancada.

Então fomos numa das janelas laterais.

A madeira quase desmontou quando puxamos.

Meu amigo entrou primeiro para ver se o chão aguentava.

Depois entrou o irmão da minha namorada.

Depois a prima.

Depois minha namorada.

E eu fui por último.

Lá dentro estava absurdamente abafado.

Cheiro de madeira velha, poeira e mofo.

A sala onde entramos parecia uma sala de jantar antiga. Quase vazia. Só umas cadeiras jogadas num canto.

O chão rangia MUITO.

Cada passo parecia mais alto que o anterior.

A gente abriu mais algumas janelas para entrar luz do farol.

Depois fomos andando pela casa.

Tinha outra sala enorme logo na frente. Escada subindo para o segundo andar, mas a escada estava destruída. Parte quebrada, parte afundada.

Não dava para subir.

E graças a Deus não dava.

A gente estava naquele clima clássico de grupo tentando fingir coragem.

Um zoando o outro.

Falando alto de propósito.

Só que dava para perceber que ninguém estava confortável ali.

Então o irmão da minha namorada falou:

— Vocês ouviram isso?

Todo mundo parou.

— Ouvir o quê? — meu amigo perguntou.

— Lá em cima.

A gente ficou escutando.

No começo nada.

Aí veio.

CREC.

O mesmo barulho do chão estalando.

Outro.

CREC.

Mais um.

Passos.

Lentos.

Lá em cima.

Todo mundo ficou olhando para a escada.

Meu amigo tentou rir.

— Deve ser a casa assentando.

Só que na mesma hora:

CREC.

CREC.

CREC.

Três passos.

Parou.

O silêncio depois disso foi horrível.

O irmão da minha namorada perguntou baixinho:

— Será que tem alguém aqui?

Ninguém respondeu.

E então ouvimos um grito.

Não vindo de cima.

Vindo da janela.

A prima da minha namorada estava praticamente berrando apontando para fora.

— TEM ALGUÉM NO CARRO!!!

Cara.

Na hora meu corpo inteiro gelou.

Minha namorada grudou no meu braço tão forte que chegou a doer.

— Eu vi alguém parado do lado do carro! — ela falou. — Eu JURO que vi!

A gente foi até a janela mas lá fora só tinha o carro iluminado pelo próprio farol e escuridão ao redor.

Só que aí aconteceu uma coisa pior.

O farol começou a enfraquecer.

Bem devagar.

Como se estivesse morrendo.

A luz foi ficando mais fraca.

Mais fraca.

Mais amarelada.

O irmão da minha namorada começou:

— O que tá acontecendo??? O que tá acontecendo???

Eu falei que talvez fosse a bateria.

Mas nem eu acreditava nisso.

Porque não parecia falha de bateria.

Parecia… sei lá.

Parecia alguém mexendo na luz.

Então apagou completamente.

Tudo ficou preto.

E ninguém falou absolutamente nada.

Acho que ficamos uns bons segundos completamente imóveis.

Até meu amigo falar:

— Alguém vai ter que ir no carro.

Claro.

O dono do carro.

Eu.

Naquele momento eu já estava completamente arrependido de ter saído de casa.

Mas não tinha opção.

Fui até a janela tentando fazer o mínimo de barulho possível.

Lá fora eu quase não conseguia enxergar nada.

Só o formato do carro.

Mais nada.

Eu cheguei perto devagar, tentando ver se via alguém.

Nada.

Abri a porta… e a luz interna acendeu normalmente.

Na mesma hora eu percebi uma coisa.

O farol estava desligado.

Não queimado.

Desligado.

E o carro estava com aporta fechada.

Eu senti aquele arrepio horrível subir pela coluna.

Porque ninguém tinha ouvido a porta barulhenta daquele carro velho abrindo ou fechando.

Ninguém tinha ouvido ninguém andando.

Mesmo assim alguém tinha desligado o farol.

Antes que eu pudesse pensar mais, ouvi a galera berrando atrás de mim.

Olhei para trás e os quatro estavam saindo pela janela DESESPERADOS!!!

Minha namorada chorando.

O irmão dela praticamente em pânico.

A prima branca igual papel.

Meu amigo berrando:

— VAI!!! VAI!!! VAI!!!

Eles entraram no carro quase se atropelando.

— O QUE ACONTECEU??? — eu gritava.

Mas ninguém respondia direito.

Só mandavam eu sair dali.

Então eu liguei o carro e acelerei.

O carro pegou de primeira e eu nunca fiquei tão feliz ouvindo um motor funcionar.

A gente saiu voando pela estrada.

Eu perguntando o tempo inteiro o que tinha acontecido.

Nada.

Minha namorada só chorava.

O irmão dela estava tremendo.

Meu amigo mandando eu continuar dirigindo.

Até que depois de um tempo as coisas começaram a acalmar um pouco.

E foi exatamente aí que aconteceu a pior parte.

Eu virei um pouco para trás para perguntar de novo o que eles tinham visto.

Então minha namorada gritou:

— PARA!!!

Eu pisei no freio com tudo.

O carro derrapou.

Todo mundo foi jogado para frente.

E quando olhei…

As árvores estavam lá de novo.

Bloqueando a estrada.

As mesmas árvores.

No mesmo lugar.

Meu amigo falou:

— Não… não… não…

A prima da minha namorada começou a perguntar como aquilo era possível.

E o irmão dela voltou a chorar.

Eu fiquei olhando para os lados tentando enxergar alguma coisa no escuro.

Nada.

Só mato.

Só escuridão.

Só aquela sensação horrível de que tinha alguma coisa olhando para a gente.

Mas a gente precisava sair dali.

Então eu falei:

— A gente vai ter que limpar de novo.

Meu amigo queria que eu passasse por cima.

Mas não dava.

Ou o carro ia enroscar, ou arrebentar todo.

Então descemos.

E cara…

Dessa vez parecia pior.

Muito pior.

Tinha mais tronco.

Mais galho.

Como se alguém tivesse fechado a estrada enquanto a gente estava na casa.

A minha namorada trancou as portas assim que descemos.

Valeu pela preocupação com a gente do lado de fora...

Eu e meu amigo começamos a puxar os troncos o mais rápido possível.

E eu juro por Deus:

o tempo inteiro parecia que tinha alguém andando no mato.

Não era barulho constante.

Era pior.

Era uns sons rápidos.

Como se alguma coisa parasse quando a gente olhava.

Quando finalmente abrimos espaço para o carro passar, ouvimos um barulho forte vindo da mata.

Nós dois viramos na hora.

E alguma coisa se mexeu lá dentro.

Alguns pássaros explodiram voando.

Foi instantâneo.

A gente DISPAROU para o carro.

Mas aí aconteceu outra merda.

Ninguém abria a porta!!!

A minha namorada, o irmão dela e a prima estavam surtando lá dentro.

Os três chorando, berrando, travados.

Eu e meu amigo começamos a bater no vidro desesperados.

Ele já estava procurando pedra no chão para quebrar a janela.

E eu lembro perfeitamente da sensação.

Porque naquela hora eu tive certeza absoluta que alguma coisa estava chegando atrás da gente.

A prima finalmente destrancou.

A gente entrou praticamente se jogando.

Eu mal sentei e já acelerei.

A porta quase fechando com o carro andando.

E foi aí que vimos.

Saindo do mato.

Uma coisa.

Alta.

Muito alta.

Escura demais.

Não dava para ver rosto.

Nem detalhe.

Parecia uma sombra grossa em formato humano.

Só que destorcida.

Comprida demais.

Parada entre as árvores.

Eu lembro da sensação de olhar aquilo por um segundo e sentir meu cérebro tentando entender o que estava vendo.

Minha namorada começou a berrar.

O irmão dela entrou em completo desespero.

E eu simplesmente enfiei o pé no acelerador.

O carro quase desmontou naquela estrada.

Pulava em buraco, derrapava, batia em pedra… eu nem ligava mais.

Quando finalmente chegamos na estrada melhor conservada, ninguém falava nada.

E quando apareceu o asfalto, foi como se a gente tivesse voltado para o mundo normal.

Mesmo assim ninguém abriu a boca até chegar na cidade.

Fomos direto para a casa da minha namorada.

Os pais dela não estavam.

Quando elas entraram, eu puxei meu amigo de lado e perguntei o que tinha acontecido dentro da casa.

Ele estava pálido até aquela hora.

Aí ele me contou.

Depois que eu fui para o carro, eles continuaram ouvindo passos lá em cima.

Só que mais perto.

Mais pesados.

Então veio um som estranho do alto da escada.

Ele descreveu como alguém puxando o ar devagar… e soltando tudo de uma vez.

Como uma respiração funda.

Só que muito alta.

Muito úmida.

E logo depois veio um cheiro podre absurdo.

Coisa morta mesmo.

Fortíssimo.

Eles já estavam quase correndo quando ouviram barulho vindo da cozinha.

E então alguma coisa começou a sair da escuridão.

Ele disse que não conseguiu ver direito.

Falou que parecia uma forma preta torta entrando na sala.

E na mesma hora eu liguei o farol do carro lá fora.

A luz bateu pelas janelas.

E aquilo voltou para a cozinha correndo.

Foi aí que eles perderam completamente o controle e saíram da casa.

Até hoje eu não sei o que vimos naquela noite.

Nunca voltei lá.

Nunca procurei a estrada de novo.

E sinceramente?

Nem quero.

O irmão da minha namorada nunca mais quis tocar no assunto.

Ela também odeia quando eu menciono aquilo.

A prima ainda comenta às vezes, mas sempre muda de assunto rápido.

Meu amigo fala que era alguém tentando assustar a gente.

Só que ele fala isso sem acreditar na própria mentira.

E eu penso muito numa coisa.

A estrada estava bloqueada quando encontramos ela.

As árvores estavam colocadas exatamente para ninguém passar.

Talvez aquilo não estivesse tentando prender a gente lá dentro.

Talvez estivesse tentando impedir que alguém chegasse até aquela casa.

E nós fomos idiotas o bastante para abrir caminho.